Márcia Tiburi e as mulheres contemporâneas (22/02/2008)

Por Renata De Grande

Neste mês especial em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, entrevistamos com exclusividade uma das maiores personalidades femininas do país, a filósofa e escritora Márcia Tiburi. Graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela UFRGS. Publicou alguns livros de filosofia, entre eles a antologia As Mulheres e a Filosofia (Editora Unisinos, 2002) e O Corpo Torturado (Escritos, 2004), além de Uma outra história da razão (Ed. Unisinos, 2003). Em 2005 publicou Metamorfoses do Conceito (ed. UFRGS) e o primeiro romance da série Trilogia Íntima, Magnólia, que foi finalista do Jabuti em 2006. É professora da FAAP, em São Paulo, do curso de formação de escritores da Academia Internacional de Cinema, colunista de revistas, além de conferencista e participante do programa Saia Justa, do GNT.
Na conversa, Márcia falou sobre a mulher contemporânea, mercado de trabalho, e temas polêmicos como o aborto e a infidelidade. A seguir, trechos da entrevista.

As mulheres protagonizaram algumas das principais conquistas das últimas décadas, mudando status e quebrando regras pré-estabelecidas. Como você vê essa mulher contemporânea? Quais as mudanças visíveis? Comportamento, profissão, relacionamentos...

Existem muitas mudanças visíveis, como você disse. Importante é que não haja ilusões com esta percepção do visível. É certo que a vida das mulheres hoje é melhor do que em tempos passados, mas isso não é universal. Ainda existem muitas mulheres subjugadas, violentadas, aviltadas, menosprezadas, recebendo salários piores do que os homens. Veja o caso da estudante de Física da USP que passou por Madri a caminho de Lisboa para apresentar um trabalho num congresso e foi deportada sem explicação. A Espanha é um dos países mais sexistas do mundo. Lá existem muitas feministas, mas é um dos países com o maior índice de desigualdade salarial entre os sexos. Não é por acaso que lá a prostituição cresce e aparece. Como no Brasil.
É sempre bom festejarmos nossa liberdade e emancipação, mas é preciso ter cautela, pois a luta que é o feminismo não se concluiu. Ainda há muito por fazer.

O que mudou na relação entre homens e mulheres depois da Revolução Feminista? Por que, por exemplo, ainda existem diferenças salariais?

Porque o feminismo como movimento não eliminou o machismo, o sexismo, ou seja, o patriarcado. O feminismo precisa se manter vivo por isso. A meu ver está menos escandaloso, menos chamativo, mas muito mais cuidadoso e competente. Muitas mulheres são feministas reais e nem aceitam o rótulo de feministas, isso é um sinal da vitória da idéia e da verdade sobre o mero poder e a ideologia.

Quais as mudanças perceptíveis no mercado de trabalho para a mulher?

As mulheres invadiram o mercado de trabalho porque é o nosso modo social de sobrevivência. Devem cuidar hoje para não serem engolidas – como homens também são – pela armadilha da produtividade. Eu não gosto de tratar o mercado de trabalho apenas como um lugar onde todos querem estar sem um filtro de crítica. O mercado é inevitável e, também neste território, as mulheres são constantemente maltratadas, ou seja, tornadas servas e escravas. Vide a questão anterior do salário díspar, para mim ela explica o que é o mercado.

Em relação à contemporaneidade, você concorda que o narcisismo, surge como excessivo culto à beleza e a pressão social para que as mulheres se enquadrem em determinados padrões estéticos, a conhecida “ditadura” da beleza? Você acredita que essa “ditadura” acaba provocando mudanças significativas, delimitando novos papéis?

Não acho que seja o narcisismo que leva à indústria, mas o contrário. É a indústria que provoca o narcisismo. Ela produz narcisismo e o mercado o vende. Sendo uma mercadoria qualquer um que tenha dinheiro pode comprar. Há narcisismo disponível para todo mundo: da assalariada à dondoca. Narcisismo é só um nome incrível que se dá para uma vaidade bem material que você encontra em cada prateleira de supermercado e de farmácia. Se a ditadura da beleza vivesse de outro narcisismo cada um tentaria emplacar o seu. Mas, ao contrário, todo mundo compra o que foi inventado pela indústria.

Você acredita na “instituição” casamento? Por que eles estão durando cada vez menos?

Por que “eu” deveria acreditar? Eu não acredito em quase nada. Mas veja, se a questão é pensar o casamento como instituição que envolve as mulheres, digo o seguinte: o casamento foi criado para escravizar as mulheres e ao mesmo tempo protegê-las nos tempos em que eram como crianças. É óbvio que há muito casamento neste modelo antigo que, devido às mudanças econômicas e culturais tende a se manter apenas entre as classes muito altas ou as muito baixas. O casamento é um regulamentador de relações: ele regula o amor, o sexo, a procriação, a divisão e união dos bens. Que isto tenha a ver com amor é uma invenção bem recente. Por isso dar certo é, digamos, certa sorte de “milagre”.

Mesmo estando no século 21, a traição masculina é sempre vista pela sociedade patriarcal e machista como uma certa “natureza do homem”. O que pensa a respeito?

Que a traição masculina também foi institucionalizada. Assim como a burrice feminina, ou a fragilidade das mulheres. As mulheres são e sempre foram o sexo forte. Hoje em dia é preciso quebrar paradigmas, mudar o tom do discurso. Falar o que eu e você estamos falando aqui. Acho que só a liberdade de expressão abre a porta para as mudanças sociais e é claro, as mulheres dependem também de criarem expressão hoje na vida pública.

O que a maternidade mudou em sua vida? Como você encara a relação entre pais e filhos atualmente.

Para mim, como para qualquer mulher de classe média envolvida com sua carreira profissional, a maternidade não mudou muita coisa. Eu atrasei um ano o meu doutorado que conclui aos 29, depois de um mestrado e duas faculdades. Se eu fosse pobre e tivesse outra escolaridade eu teria outra narrativa em que filhos seriam um fator dificultador da vida profissional e econômica. É bem importante ver hoje que a maternidade – este mito brasileiro – é um fator tanto mais relevante quanto menos escolaridade e menos poder aquisitivo tem uma mulher. Quem sabe as dificuldades de ser mãe pensa duas vezes.

Na questão do aborto, em um dos seus artigos, você escreve sobre a participação do homem e o quanto a palavra deles se torna tão prevalente nesta questão. Fale um pouco mais sobre tema.

Eu defendo a legalização do aborto e sou contra o discurso cínico que defende a ilegalidade disfarçando-se de “respeito à vida”. Os homens decidem as leis e inclusive as leis que dizem respeito diretamente ao corpo e à vida das mulheres. Eu apenas espero que as mulheres participem cada vez mais do debate sobre o aborto para que ele se torne, quem sabe um dia, democrático.

Mudando de assunto...a ética na política se tornou uma utopia?

Não. Não acho impossível reunir ética e política. Acho apenas demorado e trabalhoso. Mas se eu desistir de antemão tudo ficará pior ainda.

Na sua visão como será a mulher daqui a duas ou três décadas? Suas novas demandas, seus papéis, amores, família...

Não sei, mas espero que não precisemos mais falar de feminismo porque tudo o que se espera deste movimento em termos de justiça e ética já tenha sido realizado. Espero que falemos sobre construções coletivas, arte, invenções novas e prazer em conviver uns com os outros sem que a diferença entre sexo, cor, opções, modos de ver o mundo, provoquem tanta violência entre nós que somos como seres humanos, apenas uns animais mais ou menos inteligentes e muito perdidos.

Foto: Arquivo GNT
22/02/2008

 
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