Meu filho não come direito. O que faço? - Dr. Raul Emrich Melo

Teve formação de graduação, especializações e pós-graduação (Mestre e Doutor) na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), além dos Títulos de Especilidade conferidos pelas Sociedades de Alergia e de Pediatria, aos quais é associado. Também faz parte da Sociedade Brasileira de História da Medicina.

Atualmente é pesquisador associado da Disciplina Alergia-Imunologia da UNIFESP.

Tem publicado artigos em revistas especializadas com o tema História e Medicina, além de artigos para público leigo (www.tratandoalergia.com.br).

Participa como voluntário no Projeto Quixote – um projeto para inclusão social de crianças e adolescentes – ligado à Escola Paulista de Medicina/UNIFESP.

Neste mês é ele quem responde suas dúvidas sobre: Meu filho não come direito. O que faço?
  • Clique sobre a pergunta para visualizar a resposta:
  • 1 - Tenho um filho de 2 anos e 4 meses que não se alimenta direito e sofre de intestino preso. O que posso fazer para melhorar seu problema e fazê-lo comer?

    As crianças, quando saem da fase de lactância (fase de bebês que tomam muito leite, ou de lactentes – até 2 anos), passam pelo processo de recusa de alimentos que não são conhecidos (neofobia, ou fobia do novo) e começam a preferir aqueles que sejam mais apetitosos (gordurosos, salgados e açucarados, por exemplo). Nesse momento, os pais tendem a ceder aos pedidos e vão, gradativamente, permitindo uma dieta não saudável – com poucas fibras, proteínas pobres nutricionalmente, embutidos, etc. É natural que, nesses casos, o intestino comece a funcionar mal, e a criança passe a apresentar constipação (ou “intestino preso”). Quando a constipação é prolongada, o médico terá que lançar mão de laxantes até que o intestino perca a “memória de constipação” e a criança também se sinta mais segura de ir ao banheiro, pois a dor ao evacuar alimenta o ciclo vicioso de constipação/dor/mais constipação. Mesmo porque não se muda a dieta de um filho do dia para a noite. Atualmente existem iogurtes que têm colaborado para o equilíbrio intestinal de adultos e crianças, além de laxantes seguros, à base de fibras. O pediatra saberá escolher boas opções.

  • 2 - Todo dia é uma luta para convencer o meu filho a comer legumes e verduras. O que faço?

    Inicialmente, é preciso analisar como está a refeição dos pais, ou das pessoas que cuidam da criança. O exemplo é fundamental, e será assimilado aos poucos, ao longo dos anos. Depois, é interessante fazer receitas diferentes e chamar a criança para participar, ajudando na culinária (uma ideia é adquirir um livro que seja atraente para o universo infantil). Para isso, discutir os ingredientes que farão parte da receita e ir à feira com a criança e, por fim, combinar (e cumprir) um trato importante: não é necessário comer, mas é preciso experimentar. Ao experimentar (até pelo menos 10 vezes), haverá a surpresa de acostumar com o novo paladar e até começar a gostar. Ideias simples, como fazer desenhos em legumes, mostrar como os azeites têm gostos diferentes ou ralar um bom queijo em cima da salada podem fazer toda a diferença.

  • 3 - Sou separada e o pai dos meus filhos os educa comendo porcarias. Quando eles chegam em casa, só querem batata frita. Como administro esse problema?

    A criança pode querer, pedir e chorar, é direito dela. O dever do cuidador (a mãe, no caso) é suportar a pressão e dizer que em cada casa há uma regra diferente. E a regra da casa deve ser cumprida. Filhos se utilizam de chantagem e até de comentários cruéis como “prefiro a outra casa”, “não gosto de você”, etc. O adulto que é educador não se dobra a essa tática infantojuvenil e deixa bem claro que, se o filho não quiser comer no almoço, à noite haverá jantar. Para facilitar, é melhor não ter “porcarias” em casa e combinar em que dia da semana será feita uma extravagância ("vamos ao mercado na terça comprar aquilo"). Outra ideia é escolher uma refeição da semana (sexta à noite, por exemplo) e deixar que as crianças tomem a decisão sobre o que será servido. Nenhuma criança fica doente por jejum autoimposto se houver comida na mesa, pois a fome é um forte estímulo. Aquele que realmente educa terá de fazer o papel de “chato” frequentemente. No futuro, o exemplo será lembrado e o “chato” passará a ser considerado um sábio.

  • 4 - Minha filha só gosta de frutas misturadas ao leite. Tem algum problema em ingeri-las assim?

    Se for eventual, não há problema. O leite pode atrapalhar a ingestão de outros nutrientes (como o ferro). Por isso é indicado o hábito do “leitinho” da manhã e da noite, longe das refeições. Além disso, ao misturar as frutas e esconder o sabor, a criança não apresenta evolução no paladar e cresce continuando a não conhecer o alimento. Criança não é adulto. Quando ela diz que não gosta, a frase deve ser traduzida por “ainda não conheço o suficiente para começar a gostar”. A empolgação do adulto, trazendo frutas cortadas e frias para uma eventual sobremesa, ou a divertida partilha de uvas entre a família fazem parte desse processo. Por exemplo: “Ok, meu filho, depois comeremos o chocolate. Por enquanto eu vou comer esse melão geladinho que está uma delícia. Você não quer experimentar?” A feira é um bom lugar para a experimentação. Os feirantes separam pedaços suculentos para atrair fregueses.

  • 5 - Nunca sei se meu filho come o suficiente ou não. Existe uma quantidade de “colheradas” ideal que sacie sua fome?

    Sim. Aquela quantidade que resulta em crescimento adequado, desenvolvimento mental e social e a sensação de que a criança está feliz. O pediatra dará a resposta à pergunta fundamental: “meu filho está se desenvolvendo bem?”. Algumas crianças precisam de maior aporte calórico que outras. Fazendo um paralelo: alguns automóveis andam 6 km por litro de gasolina; outros fazem o dobro do percurso com o mesmo combustível. São diferenças de metabolismo. A saciedade, em uma criança saudável, mostrará o caminho. O problema da vida moderna é justamente o contrário: pediatras têm se esforçado em convencer os pais de que as crianças estão comendo mais do que precisam e, consequentemente, ganhando peso em excesso. Além disso, a qualidade da alimentação deve ser levada em conta. Não basta comer determinada quantidade, a comida deve ser variada, saudável, e só eventualmente (numa festa em bufê, por exemplo) com guloseimas e sanduíches.

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