Por que tanta gente tem enxaqueca?
Por Dr. Ricardo Teixeira 22/11/2011São várias as causas de dor de cabeça, mas a enxaqueca é uma das mais comuns, chegando a afetar até 20% das mulheres, um pouco menos de 10% dos homens, e tem como fator determinante o próprio código genético do indivíduo.
Quando uma condição médica com forte influência genética tem uma frequência tão alta na população, somos sempre levados a refletir se esta condição não representa na verdade uma vantagem do ponto de vista da evolução da espécie humana. As pessoas com enxaqueca seriam seres mais evoluídos?
A dor é um mecanismo de defesa
De acordo com a teoria da evolução e seleção natural, os seres mais adaptados têm maior chance de sobreviver e se reproduzir. Mas como imaginar que um indivíduo que tem dores de cabeça possa ser mais “adaptado” que aquele que não as possui? A dor, de uma forma geral, é vista do ponto de vista evolutivo como um mecanismo de defesa a situações potencialmente danosas ao corpo: por sentirmos dor, retiramos nossa mão de uma água fervente e não nos queimamos. Sabe-se que indivíduos com enxaqueca apresentam uma sensibilidade aumentada a estímulos sensoriais (visuais, auditivos, olfativos), assim como uma menor tolerância a alguns desafios, tais como jejum, insônia, estresse físico e emocional. Podemos argumentar que esta sensibilidade apurada faz com que este indivíduo evite de forma mais eficaz situações e ambientes complexos, que poderiam ser interpretados como predatórios do ponto de vista evolutivo.
Enxaqueca e hábitos saudáveis
Um importante e grande estudo epidemiológico realizado em Baltimore nos EUA e recentemente publicado na revista científica Neurology em abril de 2007 coloca ainda mais lenha na fogueira de que as pessoas com enxaqueca sejam mais “evoluídas”. Cerca de 1.500 indivíduos foram acompanhados por uma média de 12 anos, e repetidos testes das suas habilidades cognitivas foram realizados. Ao envelhecer, os indivíduos com o diagnóstico de enxaqueca mantiveram sua performance cognitiva com mais sucesso do que aqueles sem enxaqueca. Além de diferenças biológicas, um fator que pode explicar essa diferença é o que essas pessoas possam atravessar os anos com hábitos de vida mais saudáveis, já que elas teriam um alarme cerebral que os afasta instintivamente de situações “predatórias”.
Estímulos x crise
Charles Darwin foi um homem que sofreu de dores de cabeça recorrentes e incapacitantes, que provavelmente correspondiam a crises de enxaqueca. Talvez isso contribuísse em parte para sua fama de antissocial. Nem por isso deixou de rodar o mundo a bordo do Beagle e virar de cabeça pra baixo o pensamento de toda a humanidade.
Ricardo Teixeira é doutor em Neurologia pela Unicamp. Atualmente, dirige o Instituto do Cérebro de Brasília (ICB) e dedica-se ao jornalismo científico. É também titular do Blog "ConsCiência no Dia-a-Dia" .
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