Humor tem tudo a ver com saúde
Por Dr. Ricardo Teixeira 07/01/2011É difícil pensar em alguém que não se sinta bem após uma sessão de gargalhadas. Mas será que, além do bem-estar que provoca, o riso realmente faz bem à saúde? O velho ditado de que rir é o melhor remédio tem algum fundamento? Podemos explorar os efeitos do humor sobre nossa saúde sob três diferentes aspectos.
1- O ato de rir provoca mudanças fisiológicas no corpo e um estado emocional que podem ser positivos ao estado de saúde.
Estudos que avaliaram o impacto do humor sobre a saúde dedicaram-se principalmente aos temas dor, estado imunológico e saúde cardiovascular. Alguns experimentos demonstraram que indivíduos são mais capazes de suportar estímulos dolorosos quando estão assistindo a vídeos com conteúdo de humor. Outros estudos avaliaram componentes do sistema imunológico antes e depois de uma sessão de vídeo com conteúdo de humor, e os resultados revelaram respostas imunológicas positivas. Quanto ao sistema cardiovascular, pesquisadores demonstraram que pacientes com doença coronariana têm menores scores numa escala de senso de humor frente a situações do cotidiano. Na verdade, temos boas evidências de que a falta de senso de humor – ou uma vida acompanhada de impaciência, raiva e atitudes hostis – está associada a um maior risco de desenvolver pressão alta, piorar o controle dos níveis de glicose e ainda aumentar o risco de doença isquêmica do coração e de morte.
Não se pode dizer, até o momento, que são definitivos os resultados das pesquisas sobre o impacto do humor em nossa saúde, pois ainda existem controvérsias. Entretanto, há bons indícios de que há uma ligação entre a emoção humana e nosso estado imunológico e cardiovascular, assim como nossa capacidade de perceber a dor. Se o humor faz bem à mente, já é meio passo dado para fazer bem ao corpo.
2- O humor pode modular os efeitos adversos do estresse.
Qualquer emoção intensa é capaz de ativar o sistema nervoso simpático, que por sua vez libera uma série de “combustíveis” no sangue – entre eles a adrenalina –, para que estejamos prontos a enfrentar ou a fugir da situação que nos provocou emoção. Uma pesquisa que comparou os efeitos fisiológicos durante um filme triste e um filme de humor revelou que ambos foram capazes de estimular o sistema nervoso simpático, mas provocaram respostas diferentes no quesito pressão arterial. O filme triste aumentava a pressão arterial dos voluntários, enquanto o filme de humor não. Um outro estudo comparou os níveis de hormônios de estresse nos indivíduos, antes e depois de assistirem a um vídeo de humor, e mostrou uma redução dos níveis de cortisol, hormônio do crescimento, e de um metabólito da dopamina. Não houve aumento dos níveis de endorfina, contrariando a crença de que rir faz bem porque aumenta os níveis desse hormônio. Talvez a dopamina tenha muito mais a ver com o riso, já que é o neurotransmissor dominante no sistema de recompensa cerebral.
Há evidências de que o humor pode ser um bom remédio contra a ansiedade
Um interessante experimento propôs aos voluntários que eles receberiam um pequeno choque a qualquer momento. Uma parte dos indivíduos estudados apenas esperou pelo choque, outra parte esperou ouvindo um áudio sem conteúdo humorístico e um terceiro grupo esperou pelo choque ouvindo um áudio com conteúdo de humor. O áudio de humor foi capaz de reduzir a ansiedade antecipatória ao choque, e o efeito foi mais robusto entre os indivíduos com maior senso de humor.
Além disso, há evidências de que após uma boa sessão de riso temos o relaxamento de grupos musculares e redução da excitabilidade da medula espinal, efeito que pode durar por mais de meia hora.
3- O humor tem o potencial de incrementar a rede de relacionamentos de um indivíduo, promovendo maior apoio social.
Estudos revelam que o senso de humor de uma pessoa está associado a outras virtudes que facilitam as relações sociais, como é o caso da empatia, capacidade de se relacionar com intimidade e confiança interpessoal. Além disso, temos cada vez mais evidências de que existe certo contágio emocional entre as pessoas. Pessoas que mantêm contato com um indivíduo deprimido têm maior tendência a ficar deprimidas. Sabemos também que nosso estado de felicidade é um fenômeno de rede social, ou seja, depende do grau de felicidade das pessoas com as quais estamos conectados.
Emoções positivas, o sorriso, o estado de felicidade, todos podem ser vistos do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazerosos nos outros, recompensar os esforços alheios e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de estabelecer relações sociais.
Podemos pensar na relação entre o senso de humor e saúde como um círculo virtuoso, em que há influências positivas nos dois sentidos. Um bom senso de humor está associado a uma maior autopercepção de saúde, maior capacidade de cooperar com a doença e a uma maior tendência a buscar assistência médica. Por outro lado, é preciso estar de bem com a saúde para que se tenha bom humor. E ainda há um outro lado dessa moeda. Existem pessoas em que o feitiço vira contra o feiticeiro: o senso de humor pode servir como ferramenta para negação de sintomas e problemas de saúde.
Onde é que o riso se encontra no nosso cérebro?
As regiões mais frontais do nosso cérebro são consideradas as mais recentes no processo de evolução das espécies, e é aí que se concentram funções especializadas como a linguagem e o riso. O riso, por sinal, é exclusivo da espécie humana (a hiena não ri), e já foi demonstrado que a área cerebral que desencadeia o riso em última instância está nessa parte frontal, e até mesmo que sua estimulação elétrica durante procedimentos cirúrgicos é capaz de desencadear o riso. Temos evidências também de que o hipotálamo e as regiões temporais também têm participação na geração do riso. É claro que, no mundo real, precisamos do cérebro como um todo para entender a piada.
Ricardo Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp. Atualmente, dirige o Instituto do Cérebro de Brasília (ICB) e dedica-se ao jornalismo científico. É também titular do Blog "ConsCiência no Dia-a-Dia"
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