Dr. Waldemir Rezende saude

O Prazer Feminino

Por Dr. Waldemir Rezende 06/06/2011
Em primeiro lugar, é preciso destacar que existem diferenças entre a sexualidade e a forma de sentir prazer experimentadas por ambos os sexos. O prazer da mulher frequentemente relaciona-se com elementos inimagináveis para a maioria dos homens, e a enorme variabilidade de modelos eróticos femininos é, muitas vezes, integrada e dependente de carinho não carnal, conforto espiritual, segurança emocional e respeito do parceiro diante de suas virtudes e eventuais fraquezas.

Nesse contexto, deve-se ressaltar que não existe um manual genérico do prazer: quanto mais o casal for capaz de deixar florescer a intimidade, maior será a troca de informações sobre as sensações de cada um, e maior será o prazer proporcionado por essa relação, tanto no aspecto sexual quanto no emocional.

Para entender o funcionamento do prazer feminino, não se pode deixar de abordar aspectos da genitalidade: assim como o homem, a mulher tem a sensibilidade ao prazer (por meio de ramificações nervosas) mais concentrada na parte externa de seu órgão sexual (vulva, clitóris, vagina), além da grande sensibilidade nas mamas, principalmente nos mamilos, além das nádegas e parte interna da pelve e proximidades da regia genital. No homem, o maior percentual de sensibilidade e da excitabilidade concentra-se na glande (extremidade do pênis), que se exterioriza por meio da ereção, de modo similar às terminações nervosas existentes no clitóris – órgão de grande relevância para a excitabilidade feminina, desde que todos os princípios mencionados em nosso primeiro parágrafo sejam respeitados.

Clitóris: o caminho do prazer

É por essa razão que muitas mulheres afirmam não sentir prazer com a penetração vaginal, apenas quando associada ao estímulo clitoriano. Freud associava a falta de prazer vaginal à imaturidade sexual, mas, hoje, sabe-se que existem diversas explicações para tanto (sendo, inclusive, absolutamente normal que isso ocorra): além da questão das terminações nervosas, que estão concentradas na região do clitóris, existe a questão psicológica, ligada à relação da mulher com sua sexualidade (sua capacidade e vontade de aprender a sentir prazer com o próprio corpo) e a uma multiplicidade de fatores ligados à subjetividade de cada uma.

Sabendo-se que o clitóris, por definição, é a parte capaz do corpo feminino que, ao ser estimulado, proporciona mais prazer, vem a pergunta: por que o desejo feminino está tão relacionado à penetração masculina? Aí vem um aspecto peculiar da sexualidade feminina, e que nos traduz um pouco da complexidade da sexualidade humana: muitas mulheres explicam esse desejo como a vontade “de sentir o parceiro dentro dela”, o que lhes proporciona, por si, muito prazer.
 
A falta de orgasmo – ou anorgasmia – entre as mulheres é uma queixa comum nos consultórios, e pode decorrer de muitos fatores. O moralismo e a mentalidade social machista, em que a mulher deve destinar-se a proporcionar prazer ao homem (e não procurar descobrir como sentir prazer por si mesma), apesar de ser um fator atenuado pela mudança cultural que nossa sociedade tem passado, ainda é causa da redução de prazer feminino. Essa mentalidade, muitas vezes incutida na mulher desde a infância e pelo meio em que vive, é uma questão que fica oculta nela, isto é, compõe alguns de seus pensamentos e reflexões íntimas, mas não é exteriorizada como um problema ou como causa de sua vida sexual pouco satisfatória. E exatamente por não ser comunicado ou enxergado como um problema é que o tema vira fonte de sofrimento: a mulher sente pouco prazer, mas, como a causa do problema é difusa e inconsciente, ela não sabe apontá-la, e isso vira um problema constante e sem solução.
 
Para que a mulher possa sentir mais prazer, em primeiro lugar é necessário que, em seu dia a dia, ela seja capaz de ter momentos de concentração em si mesma, em seu corpo, suas sensações e seus pensamentos; apenas com essa experiência diária de autoconhecimento ela será capaz de identificar o que lhe causa prazer e o que lhe é indiferente. São coisas absolutamente subjetivas, que só ela mesma será capaz de descobrir. A experiência de troca com o parceiro é o segundo passo: conhecendo seu corpo e suas sensações, é necessário agora explorar isso junto com o outro, e ser capaz de comunicar suas sensações e vontades. E, aos poucos, vai-se percebendo que poder dar e receber prazer, em um mesmo momento, é uma das melhores sensações que se pode ter!

Referências:
Low sexual desire in midlife and older women: personality factors, psychosocial development, present sexuality. Hartmann, Uwe PhD; Philippsohn, Susanne MD; Heiser, Kristina PhD; Rüffer-Hesse, Claudia M. Menopause: November/December 2004 - Volume 11 - Issue 6, Part 2 of 2 - pp 726-740

REVIEW ARTICLE
The pathophysiology of hypoactive sexual desire disorder in women
Anita H. Clayton. International Journal of Gynecology and Obstetrics 110 (2010) 7–11 
 

Waldemir Rezende é médico, doutorado em medicina, especialista em Obstetrícia, Ginecologia e Mastologia. É coordenador do Serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Santa Catarina de São Paulo e diretor da WR Assevera - Consultoria Médica e Hospitalar.

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