Dra. Luiza Ricotta saude

Como lidar com um parceiro que ganha menos

Por Dra. Luiza Ricotta 01/07/2011
“O desafio de ser plural: a vida conjugal, familiar e a satisfação pessoal”

Homens e mulheres atuam em suas atividades e funções distintas, na condição de casal ou enquanto indivíduos. E, no que tange ao mundo profissional, têm suas profissões, obtendo seus ganhos financeiros. Estima-se que o gênero masculino ganhe 30% mais que o feminino, de acordo com institutos de pesquisa associados ao trabalho. No entanto, haveria outra contabilidade a ser feita, seja sob a ótica da satisfação pessoal, do compromisso que cada um tem para com as suas funções na família e com a(o) parceira(o), bem como aquele que dimensiona o valor do trabalho dedicado ao outro, que não possui correspondência financeira, mas que se fosse dimensionado em matéria de valor, certamente a contribuição financeira de um estaria equilibrada à do outro, no que diz respeito aos trabalhos informais, domésticos e de cuidados específicos. Tudo isso sairia muito caro caso tivesse um valor. É interessante fazer esse exercício no sentido de ter essa dimensão, que não envolve aquele empregado no mundo profissional. E, sim, a dedicação direcionada à vida que se construiu e é necessário manter. É zelo, cuidado dispendido.

Onde e como investir 

Onde aplicar o orçamento é tema da vida comum e por vezes complexo. Veremos a generosidade de uns, a limitação de outros, os excessos e extravagâncias que levam a descontroles, e certos interesses advindos de suas necessidades pessoais, que nem sempre são contemplados ante os compromissos familiares que se tem. Como aquele curso que você gostaria de fazer que  ficou para segundo plano quando o assunto foi assumir alguma prestação de grande importância para a família. É no treino dessa distribuição que certas compensações existem, pois também há satisfação em proporcionar bem-estar aos seus, ainda que haja algum tipo de sacrifício. Por vezes, a sua necessidade particular se mostra dentro da perspectiva da necessidade familiar, na qual você também estaria incluído. 

O modelo provedor masculino 

O homem ao longo da história ocupou a posição de provedor, sendo generoso neste sentido. Seus ganhos sempre foram pensados enquanto distribuição entre todos aqueles que se tornariam seus dependentes. E isso representa sucesso, dar conta e responsabilizar-se pelas relações que instituiu em sua vida. Mas temos que conceber a necessidade deste homem de forma singular. A que preço estaria abrindo mão de algum interesse seu para manter uma estrutura coletiva? Muitos homens são criticados na sua conduta quando não o fazem.

A mulher cuidadora 

Historicamente, teve outro desenrolar e a mulher, na atualidade, conquistou a posição de obter ganhos em razão de seu trabalho profissional, o que lhe ofereceu independência. Mas não ganhou a dimensão do seu trabalho doméstico em razão de não o ter mensurado em termos de valor. Caso o fizesse, perceberia o quanto ele tem importância. 
Em alguns casos, certas mulheres ganham mais que o seu próprio companheiro. E isso pode ser um problema, caso ela gerencie esse fato como uma forma de estabelecer uma diferença entre eles. Se esse fator for nivelador de uma posição superior ao outro, certamente que haverá conflito. Sendo parte desse aprendizado histórico em que os homens teriam exercido no relacionamento conjugal uma autoridade de superior em razão de ganhar mais que a sua companheira, sendo ela submissa.

Podemos entender aqueles casos em que mulheres se tornam arrogantes em relação a sua condição financeira, imprimindo uma espécie de “não preciso de você”, uma agressão e um desnivelamento da relação afetiva onde não há a necessidade da imposição de um ser superior ao outro. Uma espécie de conduta incorporada com o propósito de responder à submissão antes vivida.

Casais novos 

Eles já adaptados à divisão dos custos, já estão mais preparados para dividir essas responsabilidades do orçamento. Já os casais com filhos, que administram uma família, se sentem mais compelidos a um empenho maior, pois, além do projeto de ser um casal, sustentam outro projeto, que envolve dar sustentação a essa família, em que homem e mulher participam financeiramente ou não. Isso quer dizer que cuidados que a mulher tem para com a família, e mesmo o homem em dispender uma atenção extra, representam também um valor, um “quantum”.

O casal que dá condições de outros integrantes da família estarem sob sua proteção também se gratifica. Enquanto estão vivendo, se ocupando, trabalhando e se empenhado em realizar projetos pessoais que lhes satisfazem, possibilitam aos seus dependentes condições de se viabilizarem enquanto pessoas que estão sendo formadas. Isso dá muita satisfação, no entanto, ficaria faltando aquele olhar para si mesmo, que em algum momento surgiria. Pessoas que pouco fazem para atender demandas pessoais acabam contabilizando negativamente aspectos da relação conjugal e da família ao se sentirem insatisfeitas. Ainda que a responsabilidade seja, muitas vezes, mais importante para aquele que é mãe e pai, não significa que esteja destituído de seus interesses. As necessidades individuais precisam ser consideradas na distribuição do orçamento, vindo contemplar a cada um.

Usando da criatividade 

Cada vez se torna mais difícil realizar-se nas suas inciativas em razão das altas responsabilidades. Os indivíduos querem e objetivam estender essa proteção aos seus, mas quando essa situação se torna crítica em razão de se ver pouco gratificada(o), crises ganham espaço, como a insatisfação de estar trabalhando apenas para cumprir o que o orçamento pede, não sobrando para fazer aquelas atividades tão esperadas. À medida que o tempo passa, as tais expectativas tornaram-se frustradas e já não se veem mais condições de satisfação das mesmas. Homens e mulheres precisam chegar a um termo nessa questão do trabalho, pois, ainda que empreguem todo o tempo na atividade profissional, ficam angustiados com relação aos cuidados que gostariam de estar tendo com seus filhos e consigo mesmos. Aquela academia que fica para trás, aquele curso de tênis que foi perdido. Muitas perdas vão ocorrendo, e há que se ter criatividade para buscar meios de gratificação, seja ao realizar atividades de lazer que não representam tanto custo, seja ao aumentar os momentos de prazer por meio das coisas simples do viver que unem o casal.
Períodos críticos 

As discussões entre casais circulam entre ter tempo para se dedicar ao outro, a si mesmo e aos filhos quando os têm. Casais com filhos pequenos ainda estão mais disponíveis para esse evento marcante que essa etapa da vida aponta, mas, tendo passado esse período, acabam por retomar suas necessidades pessoais, exatamente aquelas anteriores ao nascimento filhos. Em alguns, tais desejos retornam e há uma espécie de percepção para o caso delas serem pertinentes. Muitas dessas necessidades podem ter tido o seu prazo expirado, pois algumas delas fazem parte de um período que já não mais corresponde à realidade – seja o lazer na companhia do outro, a participação em atividades que lhe restaurem a identidade pessoal e menos a função coletiva familiar adquirida.

O grande desafio do casal 

Está em passar do seu referencial particular para o familiar. Ora está na função de pai ou mãe e ora está como marido, esposa, mulher e homem, tudo isso ocorrendo concomitante; coexistindo nos mundos pessoal e familiar, em que a força do casal não pode ser perdida na sua intimidade, no seu diálogo e na convivência agradável do indivíduo que cada um é, sem aquela forte tendência entre muitas pessoas, que é a de dimensionar tudo como uma coisa só. Institucionalizam-se suas relações e perdem-se os pontos de referências que fazem com que o casal permaneça unido pelo sentimento, pelo compartilhamento da vida, pela ajuda mútua.

Casais que vêm se tornando competitivos deixam de se reconhecer, pois ficam presos ao que é institucionalizado, abandonando a si mesmos para exercerem a função outra que também é existente, mas que precisa ser arejada com a satisfação pessoal. Quando um dos parceiros tem um ganho maior, certamente estará mais ocupado, oferecendo menor disponibilidade de tempo. E, sendo assim, o outro participará ativamente das demais atividades que dão corpo à família que se constituiu, contribuindo para o todo, função essa também do casal. É pela amizade e reconhecimento do valor do outro na vida de cada um que há possibilidade de uma conduta balanceada, que faz ser possível ser casal, ser família e ser indivíduo. 

Se os parceiros tiverem menor nível de competição, poderão conviver com o fato de viver na complexidade que a vida lhes possibilita. Imaginem os casais que estão em novas uniões: se não estiverem muito claros a dedicação e o espaço para essa interação existir, a relação irá sucumbir diante da força da rotina que empurra os envolvidos para o papel institucionalizado, de ser pai ou mãe unicamente, sem prazer algum, perdendo em qualidade de vida e em gratificação pessoal.

Luiza Cristina de Azevedo Ricotta é psicóloga e profª universitária. Trabalha com Desenvolvimento Pessoal e Profissional. Autora de vários livros sobre autoconhecimento.
luizaricotta@hotmail.com, Twitter: @luizaricotta 

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