Dra. Luiza Ricotta saude

A interferência das redes sociais nos relacionamentos

Por Dra. Luiza Ricotta 13/02/2012
Das razões 

Uma das causas para o divórcio conjugal medido em pesquisas relacionadas cita o uso de ferramentas conhecidas do público que incentivam a formação de redes sociais, mais precisamente as informações que são postadas no espaço de interação e que, sendo mal compreendidas e até ingenuamente apresentadas, vêm elevando o número de desentendimentos entre os casais e as estatísticas de casos de rompimento de namoros, noivados e casamentos. A principal consequência estaria na perda da confiança, e em consequência da estabilidade, face às discussões, enganos, ressentimentos, mágoas e ciúmes extremos que irão minar o relacionamento. Se não é em si a causa única da separação, vem sendo o estopim para o surgimento de incompreensões. Aqueles que desejam manter seus vínculos precisam tomar medidas de cautela e prevenção, e a melhor forma é sendo o mais claro possível na sua forma de comunicar, sem dar margens a interpretações outras por parte de quem as lê. 

A desproteção do vínculo 

Em parte a razão dessa cisão começa pela brecha que tais colocações possam oferecer, promovendo a desproteção do vínculo, ou seja, colocando-o exposto a situações sobre as quais não se tem controle absoluto, em que pessoas (externas ao interesse do vínculo) podem manipular informações, insinuar, utilizá-las para outro fim considerando seus interesses, deformar a realidade e até inventar. E é aí que tal brecha ocorre, dividindo as posições e apontando uma faceta desconhecida até então: a de que são desconhecidos, de que possuem áreas da vida pessoal que vêm gerar dúvidas com relação ao sentido verdadeiro de um vínculo, ou o apego, a intimidade.  A equação passa a não fechar, e o comportamento do outro passa por domínios outros e desconhecidos. Na verdade é a relação que ficou devassada e, por isso, submetida a suscetibilidades – entendimentos outros que não os verdadeiros.  O que parecia estar seguro passaria a representar uma ameaça – se não ao vínculo diretamente, a outra pessoa, que entra em pânico só de pensar que está sendo enganada. O outro, no caso o que está sob as dúvidas do seu par, é surpreendido por respostas em forma de punição, tortura psicológica, desprezo, raiva, ciúmes, mentiras e injustiças, desconhecendo a real razão para tal comportamento, pois ele está sendo gerado pela insegurança advinda das mensagens lidas e dos rastros deixados no uso das redes sociais.  Por fim as dúvidas em relação à idoneidade afetiva do outro ganham força, pois aquilo que o indivíduo vê, lê e interpreta passa a ser a verdade, e não mais a palavra do parceiro, nem mesmo a unidade da vida a dois. 

A instalação do mal

O mal se instala e o risco da perda aumenta. Onde havia entendimento, tolerância e compreensão há agora um enorme estrago provocado por incompreensões, e por pessoas que habitam a rede – que possuem formação diferente da sua, que não preservam sua intimidade e nem mesmo os seus interesses, e sim os próprios. E se estas estão descompromissadas neste quesito, como a participação em rede representará algum acréscimo em sua vida se não houver o seu cuidado, zelo pelo relacionamento e a postura certa na forma de se mostrar e utilizar as ferramentas de relacionamento social para retornos positivos? A proteção inclui ter clareza da imagem que se deseja transmitir.
Que fique claro que o mal não é termos à nossa disposição as tais ferramentas de redes sociais, e sim os choques entre a realidade virtual e real – da ordem do relacionamento amoroso. Das más interpretações e equívocos que são criados pelas pessoas.

O contato de “estranhos” facilitados pelo ambiente virtual 

O comportamento em ambiente virtual acaba gerando, para muitos, certo relaxamento no que se refere à possibilidade de estranhos poderem acessá-lo sem que conheçam você de fato. O que resulta na quebra de um formalismo por vezes “protetor” de certas invasões. E quando suas mensagens não têm o tratamento adequado e dão margem a tais dúvidas – daquilo que, de fato, se pretende e deseja expressar. Também ocorre pela disponibilidade que se passa a ter diante de pessoas invasivas, que, por estarem em ambiente virtual, extrapolam na forma de abordá-lo, sem deixar de mencionar os famosos sociopatas que fazem verdadeiros estragos na vida dos outros por puro prazer e crueldade.

Ter conhecimento de alguns dados e acesso à sua pessoa de uma forma que não se teria de outra maneira representa para oportunistas o passo para a invasão ocorrer. Daí a responsabilidade pelo tratamento que se dá às suas informações, às suas fotos e aos comentários pessoais – tornam-se uma via de acesso. 

A exposição pessoal 

Muitos questionamentos precisam ser feitos a respeito desta “aparente” ingênua forma de contato virtual, que vem provocando rompimentos. Em um estudo feito, de cada 300 contatos aproximadamente que uma pessoa pode promover na rede, em média e em seu máximo, apenas sete são verdadeiramente contatos próximos, que estão ligados a ela, revelando, assim, que a rede formada é feita de pessoas “distantes”, nada íntimas, e que são “estranhas”. 

As pessoas à sua volta, que não possuem intimidade alguma com você, e muito menos compromisso com o seu bem-estar, não se sentem comprometidas pelo tratamento e julgamento que irão destinar a você. São as maiores causadoras de estragos, no modo como interpretam a informação transmitida. E podem se comportar como invasoras, destrutivas e outras tão imaginativas com o dom de distorcer a realidade e colocar-lhe em armadilhas. 

Aqueles casos em que o namorado ou a namorada simplesmente não coloca o status atual de sua condição (namorando, solteiro, casado), e isso é o suficiente para demonstrar que há interesse por outros contatos, que não o de conversar com colegas de colégio, parentes ou coisa assim.

Aqueles casados que em seu perfil excluem seu estado civil têm provocado outra maneira de os casais romperem. A porta “aberta” fica, assim, subentendida, ainda que a pessoa no âmbito presencial não tenha interesse em algum novo relacionamento em paralelo ao existente.

Em que medida são aceitáveis os limites do quanto se expor ou não para o mundo?

Ficar exposto significa estar receptivo para todo tipo de abordagem, que irá requerer de você critério e aceitação para as abordagens. Há aqueles invasivos que somente têm esse interesse, de fazer-se parecer próximo de alguém sem medir consequências. E é na facilidade de acesso que está a quebra da privacidade. Assim chega ao seu intuito. 

Alguns casos

José, 26 anos, viu seu namoro ruir pela reação da sua namorada ao ver uma antiga amiga referir-se a um momento vivido por eles, que na realidade não teve nenhuma conotação amorosa, mas que, ao serem lidos, tais posts davam a impressão de que ambos tinham intimidade, revelada pela forma com que esta o tratava. A ingenuidade ou o ato impensado da amiga e a fúria da namorada fizeram com que a vida de José virasse de cabeça para baixo, pois ele teve que inúmeras vezes se explicar, reiterando, sem crédito, que nada havia tido com aquela moça. Mas a vinda de um “beijo” (escrito) postado na rede social pôs fim ao namoro. Aquilo foi “a gota d’água” para a namorada, que teve aí plantada a dúvida e a certeza de que José tinha algo com essa pessoa e que a enganava. Suas explicações não serviram. Acreditou no que viu escrito, na armadilha do mal uso de uma informação, que deu margens a outras interpretações.

Marina não passa um dia sem consultar a página de seu marido. Depende disso para dar continuidade ao seu dia, vendo o que ele posta e conta para os amigos. Fica à espreita, quase que à espera de “pegar” algo. Como quem quer isso para justificar o que chama de “estar cuidando do que é seu”, pois alega não querer ser surpreendida. Segue os seus passos na internet verificando os endereços de todas as pessoas que lhe interessam como se quisesse ter mais detalhes do teor do contato que vem se estabelecendo. Gasta uma boa parte do seu tempo e, com isso, não é mais tranquila. Sente-se, na verdade, como ela mesma diz: bombardeada e atacada por todos os lados. E fica pasma, dizendo: “Olha só, para ter um relacionamento hoje em dia você tem que defendê-lo ao máximo, pois o assedio é extremo”. 

Márcio procura suas amigas de colégio e faculdade, não se compromete com ninguém, pois estruturou uma estratégia para manter-se longe de qualquer vínculo. Espaça seus contatos, de repente aparece com um breve contato e, se a garota responde para ele, inicia-se assim a sua conquista. Consegue marcar um encontro, sai com ela, depois some por dois ou três meses. Quando então volta a fazer contato no mesmo formato. Acaba não ficando sem as suas saídas, com variação de garotas e, assim, permanece sem compromisso, protegendo-se através da rede.

A vida de Joana também ficou perturbada com mensagens de teor erótico vindas para seu e-mail. Conversou com seu marido sobre isso, que por sua vez ficou desconfiado de que talvez ela tivesse dado sinais de permissão a essa pessoa do escritório da empresa onde trabalha. O que nunca ocorreu. A armadilha da inadequação do colega de trabalho lhe trouxe problemas,  sendo este o intento, causar a brecha no relacionamento. Respondeu a mensagem, informando que ele não estava autorizado a enviar-lhe mensagens, e que tomaria providências na empresa. Seu marido também respondeu ao e-mail, para que então ficasse evidente que ela havia mantido a sua aliança, como forma de que o vínculo conjugal estava assegurado diante dessa invasão. 

Desastres como esses, que vêm provocando dilemas, desconfianças e quebras de privacidade, requerem a sua proteção.

Luiza Cristina de Azevedo Ricotta é psicóloga, professora universitária e escritora. Coaching em Desenvolvimento Pessoal e Profissional. Autora de livros de comportamento e educação. 
Twitter:@luizaricotta 
profluizaricotta@hotmail.com 
luizaricotta@hotmail.com 

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