Sensação de desamparo
Por Dr. Leonard Verea 19/05/2011Trata-se de uma verdadeira síndrome que, quando presente, tem uma dinâmica compulsiva que não deixa espaço: a pessoa racionalmente sabe que esse sentimento é destrutivo e sem sentido, mas, do ponto de vista emocional, não identifica opções para se comportar de modo diferente.
O que pode destruir indivíduos adultos de forma tão intensa e radical, ao ponto de não deixar com que eles vivam uma vida racional e tranquila? Em geral, pessoas que sofrem com esse tipo de comportamento são habilidosas e confiáveis, mas que, quando se apaixonam, tornam-se vítimas de medos, dúvidas e inseguranças.
Quem vive essa sensação mostra que tem carências em sua estrutura interna, que deixaram uma sensação de incerteza na capacidade de se aguentar e de se alimentar emocionalmente, sem delegar a outros essa tarefa.
Estamos falando de uma patologia que diz respeito à capacidade de se cuidar e de se sentir suficientemente alimentado – mesmo quando o outro não está presente fisicamente –, a capacidade/dificuldade de perceber os próprios recursos, o próprio potencial, a própria capacidade, ainda mais quando sozinho.
Essas pessoas são sobreviventes de grandes problemas originados na fase infantil, quando não se sentiam suficientemente protegidas e contidas, não desenvolvendo, assim, aqueles alicerces de segurança e confiabilidade que lhes permitiria sentirem-se estáveis e seguras por dentro, donas dos recursos necessários para poder enfrentar perdas, sentir-se em condições de poder encarar com as próprias forças ansiedades e dramas emocionais.
A sensação de continuidade e a percepção de poder confiar, contando com uma solidez emocional e uma boa autoestima, são fundamentais para que se possa estruturar um mundo interior estável, que supere o medo do desamparo. A pessoa que sofre dessa sensação tem um grande pavor de ficar sozinha, e vive essa eventualidade como uma real e verdadeira morte.
Dessa percepção de vazio e de fragilidade interior nascem todas as dinâmicas de defesa que se concretizam com o intuito de evitar que o parceiro possa ir embora. As estratégias utilizadas são o grude, a manipulação e o excessivo senso de fragilidade. Essas atitudes dão vida ao hipercontrole e à chantagem emocional e, tudo isso, para evitar o que mais assusta: a perda. Em outras palavras, essas pessoas desenvolvem uma grande dependência afetiva que as coloca também no papel de vítimas, mesmo de forma inconsciente, que serve para chamar a atenção dos outros.
A dependência é difícil de ser encarada
E em qualquer nível que se manifeste, e aquela afetiva ainda mais. Tais pessoas sofrem de desvalorização e de carência de estrutura, comportando-se de forma egocêntrica, acreditando nunca terem suficiente atenção do outro e do mundo.
São pessoas que tendem constantemente a dramatizar, e qualquer pretexto desencadeia a vítima interior que ativa o desejo de atenção. Podem se apresentar num duplo papel, de vítima e de salvadora: os dois extremos possuem a mesma problemática de base e, quando se encontram, podem dar vida a uma relação complexa e grudenta, em que não existe liberdade para nenhuma das duas partes envolvidas.
Como ambos os indivíduos são dependentes, viverão um círculo vicioso, no qual um será a criança necessitada e o outro será o pai cuidador: um fará mais pelo outro, se sentirá forte e importante, enquanto o outro perceberá todos os holofotes em cima de si.
Expectativas e frustrações
Esse modelo de relação é fadado a entrar em crise a partir do momento em que a mente de ambos os parceiros não se satisfizer com essa solução e quiser resolver essa dependência, deixando aflorar sinais de insatisfação e de infelicidade que produzirão uma crise.
Existem algumas características interessantes e muito evidentes nessa tipologia de pessoas – algumas visíveis também na própria postura –, que muitas vezes têm as costas meio corcundas, um corpo hipotônico, com as costas mais caídas do que o normal. Existe o medo de tomar atitudes, de tomar decisões, originário da preocupação em prejudicar a atenção do outro. Existe a contínua necessidade de pedir opiniões e sugestões que depois nunca vão ser seguidas, porque para elas não interessa o conselho, mas sim o suporte que obtém dessa forma indireta. Existe também o medo de largar as coisas, e o dependente usa muito frases como “preciso mesmo ir”, “preciso te deixar”, que demonstram sua real dificuldade em se desligar de qualquer coisa, pessoa ou situação.
No fundo, o que mais os assusta é a solidão e, para evitá-la, acabam se envolvendo em situações e relacionamentos trágicos, vivendo muito sofrimento que, para si, parece ser sempre menos dramático do que aquele consequente ao desamparo e à solidão que acreditam não conseguir gerir.
A solução dessa sensação de desamparo ocorre por meio de um processo terapêutico que dê sustentação e suporte até que a pessoa encontre dentro de si os recursos necessários para enfrentar as dinâmicas emotivas das quais tem tanto medo, e que acredita não conseguir suportar. Terapia como um momento, um espaço em que o paciente pode se defrontar livremente com a sua realidade, sem medo de censuras, julgamentos, cobranças e críticas. Desse debate interior, aflorará uma estratégia de vida que deve ser seguida, aproveitando a supervisão e a orientação do terapeuta, que ajudará a manter o caminho certo, sem se desviar dele.
Leonard F. Verea é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, Itália. Especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Clínica; é membro de diversas entidades nacionais e internacionais. Contatos: verea@verea.com.br www.verea.com.br
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