Luto Patológico
Por Dra. Dorit W. Verea 21/07/2010Nestes últimos meses temos visto desastres, terremotos, tsunamis e vendavais com muito sofrimento, perda e dor e, não apenas nos compadecemos com a dor dos familiares enlutados, mas nos remete também às nossas perdas pessoais.
A perda pode ser vista como ‘um choque’. Assim como no caso do machucado físico, o ‘ferimento’ aos poucos se cura, porém, podem ocorrer complicações e a cura é mais lenta ou outro ferimento se abre naquele que estava quase curado. Nesses casos surgem as condições anormais, que podem ser ainda mais complicadas com o aparecimento de outros tipos de doenças.
Será que existe uma forma saudável de lidar com a perda?
São inúmeros os motivos que podem fomentar um luto patológico. Quem era a pessoa, como era o relacionamento na ocasião da morte, de que forma ocorreu a morte do ente querido, a sua história, sua personalidade, sua força, sua função na família e na comunidade e infinitas outras variáveis.
A origem da palavra Luto vem do latim Lucto, que significa sentimento de pesar pela morte de alguém e por ser um processo tem começo, meio e fim, que tem seu pico de intensidade na hora em que se perde o ente querido e vai decrescendo até tornar-se uma lembrança. Porém, quando esse processo não se finaliza e se perpetua, impedindo que o indivíduo retorne as suas atividades cotidianas, ele dá início ao que chamamos de Luto Patológico.
Muitas vezes observamos que a pessoa de luto age como se nada tivesse acontecido, negando todos os sinais de sofrimento e dor. O que aparenta ser um sinal de força pode ser compreendido como luto adiado ou negado. Nestes casos, as reações imediatas à morte que não apareceram são provocadas mais tarde por eventos que não teriam força para tanto, como assistindo o noticiário na TV sobre um terremoto.
Além disso, muitas pessoas têm a sensação de que se elas deixassem de sofrer ou não mais pensar em seu ente querido, ele “pensará” que o enlutado não o ama mais.
Sentimentos ambivalentes são normais
No processo de luto normal, isto é, após a morte de um ente querido, sentimentos de ambivalência fazem parte desse processo que se finaliza com a aceitação da realidade e elaboração da dor dessa perda, assim como reajustar-se em um ambiente sem a pessoa falecida.
Durante o processo de luto é comum ouvirmos queixas referentes à: sono (não conseguir adormecer, dormir demais, acordar várias vezes durante a noite, ter pesadelos, sonhar com a pessoa falecida), comportamentos “aéreos”, busca de isolamento social, procurar e chamar pela pessoa e inquietação constante.
Muitos dos sintomas relacionados ao luto se assemelham aos da depressão e o diferencial para é a duração destes sintomas e a preservação da autoestima contrariamente encontrada na depressão.
É possível reconhecer que alguém está passando por um luto patológico se após a morte, o enlutado após, em geral um ano, persistir no processo de luto e apresentar os seguintes sinais e sintomas:
- Memórias espontâneas ou fantasias intrusivas relacionadas com a pessoa perdida;
- Fortes períodos de emoção relacionada com a pessoa perdida;
- Anseios ou desejos fortes e perturbadores de que o (a) falecido (a) esteja presente;
- Sentimentos de intensa solidão e de vazio;
- Afastamento radical das pessoas ou locais que recordam o falecido;
- Distúrbio do sono;
- Perda de interesse pelas atividades profissionais, sociais e cotidianas.
O Luto Patológico deve ser tratado
Esse processo de superação se dá após o reconhecimento e aceitação da morte ocorrida e, também, com a retomada do controle de suas emoções e problemas que essa perda ocasionou ao enlutado. O luto aparentemente resolvido pode deixar marcas que se manifestarão ao longo de toda a vida. “Só se perde aquilo que se tem...” (Parkes, 1996).
Dorit Wallach Verea é psicóloga, coordenadora da Clínica Prisma, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e especialista em Dependência Química pelo Instituto Sedes Sapientiae. É também especialista em Psicologia Psicossomática pela Universidade Paulista/SP.
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