Compulsão por chocolate
Por Dra. Dorit W. Verea 23/09/2010É irresistível! O chocolate causa na maioria das pessoas uma atração fatal. O aroma, o sabor, a cor, seja ele mais escuro ou branco, na forma de bolos, pudins ou em barras, quase todo mundo é atraído por ele. Quem resiste a um brigadeiro, a um sorvete ou bolo floresta negra?
Chocolate tem um quê de prazer emocional. Oferecemos bolos em festas, bombons à namorada, à professora e a todos a quem queremos demonstrar afeto. Tem gente que, quando está triste, come chocolate para se alegrar e, quando está feliz, come chocolate para comemorar.
Como Freud bem explicou, a comida é o primeiro prazer do ser humano, que se estabelece durante a amamentação, em que a boca é o contato entre o filho e a mãe. Dessa maneira, a via oral torna-se uma região que atinge nossas emoções mais primitivas.
Porém, há pessoas que passam dos limites quando o assunto é comer chocolate. Chamamos de compulsão quando esses comportamentos ocorrem de forma repetitiva e por se apresentarem de forma frequente e excessiva, com imensa dificuldade de controle.
Você é chocólatra?
Assim, pessoas que têm compulsão por comer chocolate comem sem ter fome e não se satisfazem com o que comem, parecendo um “saco sem fundo”. Consomem uma quantidade muito grande desse alimento todos os dias (acima de 250 gramas é considerado compulsão), sem o qual se sentem emocionalmente muito mal. O que querem com esse comportamento é repetir a sensação de prazer para fugir de uma profunda sensação de ansiedade, angustia e sofrimento.
Os comedores compulsivos de chocolate ou chocólatras são aqueles que, tendo à frente uma caixa de bombons, não param enquanto não virem o final dela – e se houver mais do que uma são capazes de acabar com ela também. Muitos se sentem culpados após o consumo e relatam comer "escondido". No entanto, o controle é quase impossível, uma vez que a compulsão é sempre um processo irracional, ou seja, acontece sem que a pessoa tenha consciência sobre tal atitude.
Não há uma causa bem-estabelecida para a ocorrência de comportamentos compulsivos, porém sabemos que a compulsão é causada em grande parte por fatores psicológicos. Baixa autoestima, ansiedade, estresse, perdas, planos que não dão certo, excesso de obrigações e perfeccionismo são as causas psicológicas mais frequentes da compulsão. É comum procurarmos no alimento uma forma de aliviar o sofrimento. A compulsão alimentar acontece quando a pessoa sente um vazio dentro de si e o trata como se fosse fome, comendo na tentativa de preenchê-lo.
Além do sabor, o chocolate estimula a produção de serotonina, substância do cérebro ligada à sensação de prazer e, com isso, alivia a depressão e a ansiedade. Além de elevar os níveis de serotonina, as calorias elevam os teores de endorfinas, o que explica a tal sensação de prazer citada por absolutamente todos os apreciadores de chocolate. A serotonina acalma e as endorfinas melhoram o humor. Outros tipos de doce, segundo as pessoas que devoram chocolate, não oferecem o mesmo tipo de “alívio”.
Todas as pessoas, sem exceção, precisam se sentir amadas, aceitas e valorizadas para que tenham prazer em viver. Se nos sentimos queridos, somos também capazes de amar ao próximo e temos coragem de nos afirmar, arriscando ser aquilo que realmente somos. O amor por nós próprios é o combustível de seres humanos mais satisfeitos, produtivos, criativos e flexíveis, pois nos aceitando fica muito mais fácil aceitar os outros como são.
Compulsão x baixa autoestima
A maioria dos comedores compulsivos de chocolate possui uma baixa autoestima. No íntimo, alguns acreditam que não merecem o amor de ninguém, porque não fazem nada direito e se negam o direito à felicidade e ao sucesso. A autoestima e autoimagem estão tão comprometidas que a busca do prazer, no caso o chocolate, atua na sua polaridade oposta, ou seja, a da autodestruição. “Já que as coisas não são da maneira como eu quero, então prefiro ‘morrer’ (de tanto comer).”
Pessoas compulsivas comumente são perfeccionistas, severas, rígidas e controladoras do próprio comportamento e o do alheio, como forma de se sentirem seguras. Controlar para que tudo saia perfeito é a maneira que encontram para garantir o amor e aceitação daqueles com os quais convivem. Quando em determinadas situações percebem que não conseguem o seu intento (arrumar um namorado ou amigos, por exemplo) se sentem impotentes. Passam a não mais acreditar em sua capacidade como um todo ou tendem a culpar e agredir o mundo pelo seu infortúnio. Comer chocolate descontroladamente é uma forma de compensar o grande desprazer que sentem, perpetuando a sensação de felicidade pelo tempo que durar uma barra de chocolate.
Apesar da rigidez, as pessoas que as conhecem as consideram criativas e dinâmicas. Por isso muitas se destacam e são líderes em seu meio. Possuem enorme poder de persuasão e processam informações com uma rapidez invejável.
O autoconhecimento é indispensável no tratamento das compulsões. Dessa forma, a psicoterapia é indicada, pois faz com que o paciente se conscientize e perceba os conflitos afetivos que jazem por detrás do desejo de comer o chocolate desmesuradamente. Quando isso acontece, o indivíduo passa a reconhecer o que o faz partir para o comportamento compulsivo e pode, aí sim, evitar repetir as sessões de comilança. Medicamentos podem ser receitados quando a compulsão estiver associada a uma depressão.
Dorit Wallach Verea é psicóloga, coordenadora da Clínica Prisma, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e especialista em Dependência Química pelo Instituto Sedes Sapientiae. É também especialista em Psicologia Psicossomática pela Universidade Paulista/SP.
As opiniões emitidas nesta seção são de responsabilidade exclusiva dos colunistas, não representando a opinião da sanofi-aventis. As orientações não substituem, em hipótese alguma, a avaliação e recomendação de um médico de sua confiança, o único que poderá avaliar a sua saúde e indicar a melhor conduta para você. Consulte sempre o seu médico quando o assunto for saúde, tratamento e medicação.
NÃO TOME MEDICAMENTOS SEM O CONHECIMENTO DO SEU MÉDICO. PODE SER
EXTREMAMENTE PERIGOSO PARA A SUA SAÚDE.
- Leia também
- 04/05/2012: Por que queremos mudar os outros?
- 14/12/2011: Relações tóxicas
- 26/09/2011: Como manter o pensamento positivo?
voltar