Dra. Christiani Poço saude

Obesidade Infantil

Por Dra. Christiani Poço 24/05/2010
A obesidade infantil no Brasil atinge entre 7% e 15% das crianças. O estilo de vida atual faz com que os pais, oprimidos pelos compromissos do dia-a-dia, mudem os hábitos alimentares da família. Substituem pratos balanceados e comidas caseiras por pizzas, massas prontas, biscoitos e refrigerantes. Recente pesquisa do IBGE revela que, em geral, os brasileiros consomem muitos alimentos com alto teor de açúcar, frutas e hortaliças em quantidade insuficiente. Portanto, as crianças aprendem a comer cada vez mais gordura e menos fibras, aderindo ao que se convencionou chamar de geração coca-cola ou geração fast food.

A baixa incidência de aleitamento materno e o sedentarismo também são grandes aliados para a epidemia de obesidade infantil. As brincadeiras de rua foram substituídas por até cinco horas diárias na frente de algum tipo de tela (TV, videogame, computador). Reservando oito horas por dia para o sono e quatro para a escola, sobra pouco tempo para gastar energia. É preciso conscientizar crianças e adolescentes sobre a importância de uma alimentação completa, variada e colorida – portanto, rica em nutrientes. Não há alimentos proibidos, e sim, pratos que devem ser consumidos com moderação. E vale lembrar aos pais e mães: não adianta ensinar as crianças a comer corretamente se não respeitarem as próprias ordens. A melhor maneira de educar, colocando limites é com o próprio exemplo!

A preocupação não é somente com a estética. Muitas crianças com excesso de peso apresentam alterações nos níveis de colesterol, são discriminadas pelos companheiros e alvo de brincadeiras de mau gosto.

O controle da obesidade infantil começa em casa, com refeições balanceadas, estímulo à atividade física e mudança dos hábitos alimentares de toda a família.

Tratamento

O tratamento da criança obesa começa pela modificação dos hábitos alimentares da família. Ninguém faz regime sozinho numa casa, muito menos uma criança. Não adianta a mãe dizer que bolacha recheada que está no armário é para o irmão, que é muito magrinho. O tratamento inclui a família inteira. É pai, mãe, irmãos, todos comendo o mesmo tipo de alimentação saudável.

Segundo ponto: o tratamento baseia-se num conceito de boa alimentação. Não se fazem restrições alimentares e a criança nunca deve comer menos de 1800 calorias diárias, embora esteja demonstrado que muitas comem por dia 60% a mais do que necessitam. Do cardápio do almoço e do jantar, devem constar um pouco de arroz e de feijão, um bom bife e salada. No meio da tarde, café com leite desengordurado.

Terceiro ponto: é importante incentivar ao máximo a prática de atividade física aeróbica – nadar, correr, andar de bicicleta, andar - pelo menos três vezes por semana, no mínimo por uma hora. De preferência, a criança obesa não deve participar de atividades esportivas em grupo. Num jogo de futebol, como não consegue correr com a ligeireza do magrinho, vai ser colocada no gol onde se mexerá menos.

É obvio que sem a dieta, o exercício físico não ajuda a emagrecer, mas a atividade física aeróbica, freqüente e feita com regularidade, é muito importante nos casos de obesidade.

A refeição das crianças deve conter carboidratos (arroz e feijão), proteínas (carne, frango ou peixe de preferência assados ou cozidos para evitar o uso de óleo), verduras (tomate, alface, pepino) e frutas.

Outro alimento imprescindível é o leite. Muitas crianças, porém, trocam o leite por refrigerantes e sucos e não tomam sequer um copo por dia. Criança pequena tem que ingerir por volta de 1,0 a 1,2 gramas diárias de cálcio, o que corresponde a quatro porções de leite ou derivados (queijo, iogurtes).

O ideal é a criança fazer seis refeições balanceadas por dia: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche da noite, tudo com alimentos saudáveis e pouco calóricos.

A comida nunca deve ser oferecida como recompensa. As compras de supermercado também são muito importantes: não adianta pressionar a criança para comer menos se a geladeira e os armários continuarem cheios de alimentos "gostosos" e supérfluos. Também não adianta forçar o filho a comer frutas e verduras se os próprios pais, que deveriam servir de exemplo, dão preferência para os doces, frituras e gorduras. Raríssimas crianças com três ou quatro anos comem verdura, mesmo que os pais o façam com regularidade. A palatabilidade dos alimentos é dada essencialmente pelo açúcar e pela gordura. As papilas gustativas distribuídas na nossa língua e em todo o trato digestivo não são muito exacerbadas pela verdura, mas a mãe deve insistir, sem forçar, que a criança pelo menos experimente um pouquinho todos os dias. É um longo aprendizado.

Se a criança já é obesa e há necessidade de diminuição de peso, os pais devem estar cientes de que essa diminuição será lenta e saudável, pois a criança ainda está em fase de crescimento e o peso irá posteriormente se distribuir.

A disciplina alimentar pode ser quebrada aos fins de semana e nas ocasiões especiais, mas os pais devem saber quais os alimentos menos calóricos para oferecer aos filhos. Dê ênfase aos alimentos que a criança pode comer, e não àqueles que ela não pode.

Christiani Adão Poço é médica, especialista em endocrinologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médica endocrinologista do ambulatório da Fundação Zerbini. Médica pesquisadora clínica com certificação da Harvard Medical Internacional em "Good Practices in Clinical Research".

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